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27 de maio de 2018

A “Greve dos Caminhoneiros” e a “Copa do Mundo”

Por Clécio Dias*


A “Copa do Mundo” mais atípica do mundo para o Brasil será a Copa de 2018! É que dessa vez o brilho dos jogadores será ofuscado e os canais de televisão (bem como toda a mídia), os empresários e os cartolas brasileiros (até estrangeiros também) não encontrarão uma população tão disposta a “venerar” seus craques! 

Os velhos heróis, sem nenhum sentido para os brasileiros que lhe davam tanto sentido, há até bem pouco tempo, não são mais os mesmos! O mês de maio termina e o mês do maior evento de futebol se aproxima, mas os brasileiros não estão preocupados com a seleção e sim com comida e água que podem até faltar, a qualquer momento. 

Em 1970, vivíamos na ditadura militar, milhares de jovens eram “assassinados” por que se opunham ao sistema militar. No entanto, seus corpos esquecidos nos túmulos escondidos (quase todos até hoje não revelados) não apareceram como os jogadores de futebol e o “tricampeonato” se tornou mais importante do que o sistema político opressor que imperava. Os jovens jogadores que disputavam a taça foram venerados e os jovens que lutavam por liberdade de expressão foram esquecidos! 

Tempos depois, o tetracampeonato (1994), também fez cair lágrimas de felicidade nos olhos do tão injustiçado povo de um país tão atrasado. Não tão longe, em 2014, a goleada sofrida no jogo contra os alemães (7x1) foi mais “dolorosa” do que o desperdício de bilhões de reais (talvez até trilhões) nos gastos com estádios de futebol desnecessários. 

Um povo sem foco, sem objetivo, sem orgulho próprio, sem dignidade... 

Em 2018, a greve (manifestação) da classe de caminhoneiros por interesses desta mesma classe, mas com reflexos em diversos setores, atraiu a atenção da população que, nos dias atuais, quase não fala em Copa do Mundo... 

A luta pela redução do preço do diesel (e não de outros combustíveis) viralizou na internet e, embora quase toda a população, como sempre, não vá às ruas, apoia o movimento pró-caminhoneiros (e pró-empresários do setor mais ainda). 

O interessante é que a Copa do Mundo deixou de ser a notícia principal. Isso não acontecia desde a primeira Copa disputada em 1930. O hexacampeonato não é mais tão crucial para um povo tão injustiçado (sem atendimento médico hospitalar, sem segurança, sem candidatos, sem quase tudo que um ser humano consiga viver dignamente). 

Estranhamente, outros movimentos não ganham força dentro do movimento dos caminhoneiros. O movimento denominado “Fora Temer” não grita; outros setores em estado muito pior nada fala, o povo não se levanta... 

Há uma canalização incrível de reivindicações e uma população cheia de problemas e de deficiências em todos os setores se conforma com a reivindicação da redução do valor do diesel... Que fique o Temer; que a gasolina continue aumentando, que os hospitais continuem sem médicos e sem estrutura, que o Lula continue preso, que os presídios continue o quinto dos infernos.... Estamos satisfeitos e realizados com a redução do valor do litro do diesel! Viva o Brasil! Viva! 

Os outros milhões de insatisfeitos canalizam todos os seus “sofrimentos” como violência, injustiça, impunidade, deficiência nos atendimentos públicos, em todos os setores para a solução tão crucial da redução do diesel. 

É uma força inversa ao que acontecia quando a Copa do Mundo chegava: todas as mazelas do país eram esquecidas na frente da televisão, sob as “emocionantes narrações”, mas assim que a Copa acabava, os jogadores ganhavam seus bilionários cachês e a população brasileira voltava à sua realidade de vida de profunda e lastimável miséria... 

O apoio em massa à Greve dos Caminhoneiros que paralisou o país, por determinado aspecto, simboliza esse refúgio de expressão das insatisfações e quase todas as classes injustiçadas buscam se realizar (ou chegam a se realizar) na possível vitória dessa quebra-de-braços entre os caminhoneiros e o governo. 

Anos antes, a essa altura, as vitrines eram enfeitadas com camisas da seleção canarinha e o hino nacional (que apenas servia, e somente serve, como preliminar dos jogos da seleção) era aguardado ansiosamente... 

A população se orgulhava por ter uma seleção vitoriosa, igual ou até melhor que Alemanha, Itália, Espanha etc., hoje, “caiu na real” e, sem combustível, sem alimentos, sem o direito de ir e vir, sem justiça, sem expectativa política, etc. se envergonha por ser igual ou até pior (econômica, política e socialmente) do que Venezuela, Síria, Afeganistão e muitos daqueles países mais pobres da África... 

Essa manifestação (repito, de uma classe injustiçada) deveria servir de inspiração para o início de outras manifestações de outras tão injustiçadas classes, mas até agora não se viu... O Brasil que parou pela redução do diesel deveria parar por outras mazelas muito, mas muito mais graves do que essa... 

Ao final, fica a interrogação: e na Copa do Mundo (tão próxima, faltam apenas dias) será que o Brasil continuará parado para protestar contra as injustiças sociais ou irá parar para assistir aos jogos da seleção e venerar seus jogadores? O povo brasileiro poderá, como sempre, nos surpreender, mas essas tão ardilosas “massas de manobra” ou essa tão invisível “manobra de massas” pode “viralizar” outras “questões” sem nenhum sentido... 

*Clécio Gonçalves Dias
Poeta, corretor de Imóveis e advogado.

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